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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Universo HQ entrevista Gonçalo Junior
Valentina
Valentina
 

UHQ: Em Valentina, Guido Crepax usa várias referências culturais, que vão da literatura ao cinema, passando, inclusive, por outros quadrinhos. A nova geração de leitores brasileiros, cercada por comics e mangás, saiu perdendo por não ter a chance de conhecer Valentina e outras HQs européias, por sua pouca popularidade?

Gonçalo: Sem dúvida. Muita gente mais nova que ler
Tentação à Italiana vai se deparar com um universo completamente novo de histórias em quadrinhos. Isso porque esses artistas não são publicados no Brasil há quase 15 anos, com exceção de Serpieri, que saiu até 1998.

Lamentavelmente, a crise que afetou nosso mercado editorial de quadrinhos nesse período desestimulou o lançamento desses artistas, o que seria fundamental para nos dar uma referência diferente, um outro ponto de vista, o da cultura européia.


Valentina
Valentina, de Guido Crepax
Os italianos, franceses e espanhóis fazem quadrinhos num outro nível de qualidade, de profundidade e de valorização artística. Num contexto mais amplo, além do erótico, há uma tradição nas coleções de álbuns franceses e italianos pela qual se aprende história, política e sociologia lendo as histórias, que são colocadas dentro de contextos mais realistas.

Os álbuns eróticos de Manara e Hugo Pratt são um exemplo. Isso é importante até mesmo para a formação dos nossos desenhistas e roteiristas. O universo do super-herói e do mangá, salvo exceções, é mais pueril, de entretenimento, massificante, até fútil.

UHQ: Recentemente, dos grandes centros produtores de quadrinhos, só no Japão houve um crescimento nos quadrinhos eróticos. Nos demais ocorreu uma retração. A que atribui isso?

Barbarella
Jane Fonda interpretando Barbarella no cinema
Gonçalo: Não se pode esquecer que principalmente os quadrinhos norte-americanos passam por uma crise de criatividade sem precedentes nos últimos anos. Há também todo um contexto mais amplo que levou a uma mudança no mercado editorial. Existem novas mídias que também contribuem para que leitores juvenis, jovens e adultos busquem outras formas de entretenimento, como a internet, o RPG e a TV paga.

Os eróticos italianos pecam nesse período por não se renovar. Manara e Serpieri, nos últimos anos, perderam o fôlego, não conseguem impressionar mais com novos trabalhos, embora os desenhos continuem deslumbrantes. Mas o que plantaram está fixo no solo, consagrados para sempre.

Quanto aos mangás eróticos, creio que o Japão experimenta aquele momento de transcendência moral, de censura, de ruptura, de liberdade, que não havia antes. Há o encanto da novidade do sexo, do pornográfico. Talvez surjam daí grandes trabalhos que ultrapassem esse conceito. Mas confesso não ser a pessoa ideal para analisar isso.


La Planete Oublieé - Serpieri
La Planete Oublieé - Serpieri
UHQ: Druuna, de Serpieri, talvez seja a personagem da HQ erótica italiana mais conhecida por aqui. Seu sucesso se deve às suas poucas aparições em revistas nacionais ou à sua anatomia, tão ao gosto dos brasileiros?

Gonçalo: As duas coisas, provavelmente. Druuna era muito conhecida no Brasil nos dez anos em que permaneceu inédita aqui, o que mostra a incrível força da personagem. Valentina foi assim antes de ser lançada no Grilo, em 1971.

Todos que estavam antenados com a contracultura sabiam dela e desejavam ler suas histórias. Druuna agrada ao brasileiro por razões que não precisam ser descritas aqui. A identificação é muito grande e imediata.


UHQ: Ranxerox causou alvoroço por aqui, na década de 80, quando saiu na revista Animal. Adolfo Aizen chegou a criticar Tamburini e Liberatore, por criarem um personagem tão violento e amoral, que tinha como amante uma ninfeta viciada e prostituta. Por ser inspirada numa realidade exagerada do movimento punk a obra tornou-se datada, se comparada a Crepax, Manara e Serpieri?

Ranxerox
Ranxerox
Gonçalo: De jeito nenhum. Embora não seja completamente erótico - o que descaracteriza essa comparação -, Ranxerox foi um dos personagens mais importantes, comentados e influentes da década de 1980. Continua a ser, aliás. E isso num período de vanguarda para os quadrinhos, com minisséries como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen.

Tamburini e Liberatore anteciparam o gênero de violência extremada que predominaria no cinema nos anos de 1990 e certamente influenciaram até cineastas como Oliver Stone (
Assassinos por Natureza) e Quentin Tarantino (Pulp Fiction). Acredito que Ranxerox não foi ainda devidamente estudado e digerido. A influência punk é óbvia, mas não vejo ali algo datado. Parece-me, sim, bem atual.

Ranxerox
Ranxerox
Discordo que seja amoral, uma vez que os autores levaram às últimas conseqüências sintomas de uma sociedade doente e se revelou profético quando observamos os massacres que ocorrem com freqüência nos Estados Unidos. Há uma profunda crítica a valores sociais e morais nos excessos de Ranxerox. Isso está bem mais claro, hoje.

Pode-se até dizer que esse não era o propósito dos autores. Mas como diria Ernesto Sabato, a verdadeira obra de arte transcende os fins de quem a criou. Essa minha visão está mais bem explicada na parte que dedico a Liberatore no livro.


UHQ: Crepax, Manara e Serpieri influenciaram os quadrinhos eróticos no Brasil?

Maria Erótica
Maria Erótica, de Cláudio Seto
Gonçalo: Franco de Rosa seria a melhor pessoa para falar sobre isso porque acompanha de perto esse mercado nos últimos 25 anos. Mas acredito que sim, embora o Brasil tenha uma tradição no gênero há bastante tempo, bem antes de Valentina chegar aqui.

Desde a década de 1960, com a Edrel e depois a Grafipar, começamos a criar personagens femininas marcantes com mais ou menos pitadas de erotismo, como a inesquecível Maria Erótica, de Cláudio Seto, fortemente influenciada por Valentina. As duas sonhavam muitas sacanagens. Mesmo assim, Seto foi bem original e criativo.


UHQ: No Brasil, o quadrinho erótico se expandiu dos anos 60 até meados dos 80, com inúmeras revistas, a adesão dos melhores artistas ao gênero e até o aparecimento de editoras especializadas. Mas isso nunca se traduziu em respeitabilidade, pois sempre foi visto como "pornografia", ao contrário da Europa. Por que essas trajetórias foram tão desiguais?

Maria Erótica
Maria Erótica
Gonçalo: Creio que por limitações e deficiências do nosso mercado. No Brasil vejo essa questão com alguma clareza: os quadrinhos eróticos sofrem - como os demais gêneros - da nossa incapacidade e da falta de interesse (jornalístico ou acadêmico) em registrar isso historicamente e de tratar as revistas com mais seriedade do ponto de vista crítico.

Tudo bem que nossos autores, por uma questão de sobrevivência, partiram mais para o pornográfico a partir do final da década de 1980, mas tivemos dois momentos de grande sofisticação com a Edrel e a Grafipar, entre 1964 e 1983.

Artistas ali revelados ou consagrados como Mozart Couto, Rodval Mathias, Watson Portela, Nelson Padrella, Cláudio Seto, Fernando Ikoma, Minami Keizi, Julio Shimamoto e Flavio Colin fizeram coisas incríveis, entre o muito lixo que as duas editoras publicaram. Falta alguém estudar isso deixando o preconceito de lado.

Se houvesse maior atenção e interesse dos editores, creio que a produção teria se sofisticado bastante, porque o mercado comporta isso. Sexo vende. É preciso considerar isso sempre.


O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro
O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro
UHQ: Com suas HQs artesanais, Carlos Zéfiro (cujo nome real era Alcides Caminha) virou o paradigma do quadrinho pornô brasileiro, bem antes da eclosão do erotismo em quadrinhos na Itália. Lá também houve autores trabalhando nessa linha. Você acha que se Zéfiro fosse europeu, sua arte seria respeitada hoje como precursora da HQ erótica italiana?

Gonçalo: Certamente. Se fosse italiano, talvez sua carreira tivesse tomado um outro rumo, que não o de viver com salário de funcionário público modesto.

Os Alunos Sacanas de Carlos Zéfiro
Os Alunos Sacanas de Carlos Zéfiro
Se quisesse, na Itália, poderia ter assinado as histórias com o próprio nome. Talvez se tornasse um grande roteirista e passasse a tarefa de desenhar para outros, já que seus desenhos, embora personalíssimos, eram sofríveis.

De qualquer modo, mesmo escondido sob um pseudônimo, teria uma outra notoriedade. Mas, cá entre nós, Zéfiro parece ser o autor de quadrinhos mais conhecido do Brasil. Todo mundo já ouviu falar em seus "catecismos". Parece um Pelé dos quadrinhos.

Tenho notado isso na divulgação do livro. Pessoas completamente alheias aos quadrinhos têm me perguntado, quase sempre com certo orgulho, sobre sua importância.


Saudelli
The Third Book Of Saudelli - Bondage & Foot Fantasies
UHQ: A Segunda Grande Guerra teve um papel fundamental na história do cinema italiano, com o surgimento do neo-realismo. Em que nível influenciou os quadrinhos?

Gonçalo: Trato disso na introdução do livro. Os quadrinhos viraram uma questão de segurança nacional para Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial.

O Ministério da Cultura Popular, com seus professores-técnicos alucinados, começou a ver piolho na cabeça de careca. Passaram a dizer que os quadrinhos estavam a serviço da difusão de uma ideologia tipicamente imperialista norte-americana. Implicaram com heróis como Flash Gordon, Mandrake e Tarzan. E baixaram uma determinação proibindo a publicação generalizada de quadrinhos ianques.

Foi uma loucura, porque a Itália não tinha tradição de fazer quadrinhos e precisou improvisar. Seguiu-se, então, um período de plágio deslavado.


The Blonde, de Saudelli
The Blonde, de Saudelli
UHQ: Mesmo sendo a Itália o berço do cinema voltado ao erotismo e à sensualidade, sua produção no pornô manteve-se subdesenvolvida. Por que acha que isso aconteceu?

Gonçalo: Deve-se considerar, nesse aspecto, o vínculo católico da Itália ao longo de dois mil anos. O país abriga o Vaticano, a sede mundial da Igreja. "Naturalmente", a pressão moral sobre a pornografia continua forte, apesar do florescimento do erotismo no neo-realismo e nas histórias em quadrinhos.

Mas há um detalhe: não existe propriamente um cinema pornográfico italiano, mas mundial, pois praticamente a indústria se uniformizou, segue tendências, padrões e formas de realização baratas e sem qualquer cuidado quanto à produção - exatamente como estabeleceram os norte-americanos. Os filmes são os mesmos na Espanha, na Itália, na França, na Alemanha.

Antes, criava-se situações cômicas para dar um tempero, quando ainda era erótico. Hoje, nem isso. Vão direto ao sexo. Só estabelecem um tema para cada produção - grupal, oral, anal etc.

As comédias eróticas italianas, por outro lado, continuam gozando de certa respeitabilidade, embora a fórmula tenha se esgotado.


Manara
Outra das beldades de Milo Manara
UHQ: À exceção de Manara, que terá o álbum Bórgia lançado pela Conrad, os autores citados no livro estão há muito tempo sem serem publicados no Brasil. Por quê? Acredita que sei livro fomente o interesse do público e dos editores para o tema?

Gonçalo: Seria muita pretensão conseguir isso com o livro. Mas não custa sonhar, diante da repercussão que tem tido. Ficaria extremamente honrado se algum editor brasileiro se interessasse em publicar Crepax, Manara, Serpieri, Rotundo etc.

Há boatos de que uma editoras estaria interessada em Crepax. Vamos torcer.


Barbarella
Barbarella
UHQ: Como analisa a atual conjuntura do mercado de quadrinhos eróticos no Brasil?

Gonçalo: Parece-me que está restrito aos quadrinhos pornográficos e aos poucos mangás eróticos aqui lançados. Falta alguém para tentar produzir algo mais ambicioso e elaborado. Disse e repito: sexo vende. Dê ao público uma capa maravilhosa e um conteúdo soberbo que a coisa anda.

Nesse gênero, podemos fazer grandes coisas, fugir da influência norte-americana ou japonesa, pois somos um povo tropical, naturalmente erotizado, como os italianos. Temos peculiaridades, podemos brincar com situações de modo original, com nossas lindas mulheres de bundas - e agora seios - grandes.


Valentina
Valentina
UHQ: Há outros projetos nessa área que você pretenda trabalhar?

Gonçalo: Como disse, estou começando a reescrever
A Guerra dos Gibis 2, no qual enfoco a produção de revistas de sexo durante a ditadura militar, com ênfase na censura, mais uma vez.

Quem gostou do volume 1 e de
Tentação à Italiana, vai curtir bastante, porque há o mesmo zelo e preciosismo em resgatar a história, sempre com o máximo de profundidade.

Desta vez, contarei a história de heróis anônimos que lutaram contra a ditadura com muito prazer - sexual.


UHQ: Como foi a repercussão sobre Tentação à Italiana?

Gonçalo: Impressionante. Algumas pessoas chegaram a dizer que só comentariam depois de passar o "estado de choque" em que se encontravam após folhear a edição. Isso se deve à ousadia de Carlos Mann e Franco de Rosa. E pensar que fui contra o formato do livro. Achava uma loucura inviável. Está aí. E vamos em frente.
Universo HQ entrevista Gonçalo Junior
Erotismo à italiana... em quadrinhos



O jornalista Gonçalo Junior, autor do livro Tentação à Italiana, fala dos quadrinhos eróticos na "bota"

 
Gonçalo Junior
O jornalista Gonçalo Junior
Em agosto, o jornalista Gonçalo Junior, merecidamente, receberá o Troféu HQ Mix por ter escrito o melhor livro teórico de 2004, o imperdível A Guerra dos Gibis, da Companhia das Letras.

Pouco mais de seis meses, ele emplacou outra belíssima obra: Tentação à Italiana, pela Opera Graphica, que espanta não só pelo conteúdo, mas pelo formato arrojado (o mesmo dos álbuns do Príncipe Valente).

Num bate-papo descontraído, gentilmente cedido ao
Universo HQ pela Opera Graphica, Gonçalo conta desde como nasceu a idéia de fazer o livro até detalhes de seu próximo projeto, que também abordará o erotismo nos quadrinhos, mas dessa vez no Brasil. E no meio do caminho, claro, fala muito sobre Guido Crepax, Milo Manara, Paolo Eleuteri Serpieri, Barbarella, Valentina, Druuna, O Clic...

Tentação à Italiana
Tentação à Italiana
Universo HQ: Quanto tempo foi gasto da pesquisa à elaboração do texto final de Tentação à Italiana?

Gonçalo: Levei cerca de seis meses para escrever o livro, entre pesquisas, análises e construção do texto. Tenho uma metodologia de trabalho que procuro seguir com rigor e disciplina, para que o objetivo seja alcançado. Quase nunca faço duas coisas ao mesmo tempo. Quando pego, procuro só largar após o ponto final. Assim, creio, ficou mais fácil de estabelecer algumas idéias críticas a respeito da obra de cada autor, a partir da leitura de praticamente tudo que fizeram em erotismo.

Desse modo, mergulha-se com maior intensidade no universo de cada artista e a "pescaria" fica mais produtiva. A idéia do livro nasceu de uma conversa com o editor Carlos Mann, no começo de 2002. Falávamos da superficialidade com que se costumava tratar os quadrinhos eróticos, uma vez que a crítica sempre ficou muito
focada no traço, na beleza feminina estabelecida por esses autores.

Crepax
Guido Crepax
Então, Carlos perguntou o que eu achava de escrever um livro sobre o tema. Propus três pequenos volumes sobre cada autor que considerava os maiores de todos - Crepax, Manara e Serpieri. Ele ligou para (o editor) Franco de Rosa, que sugeriu juntarmos todos numa só edição. Assim nasceu Tentação à Italiana. Bolamos o título na hora. Passei 2002 inteiro amadurecendo a idéia e o escrevi ao longo de todo o primeiro semestre do ano seguinte.

UHQ: Você acompanhava regularmente os trabalhos desses autores?

Gonçalo: Sempre fui um grande admirador de Crepax, Manara e Serpieri, além de muitos outros. Acompanhava todos eles com fidelidade canina, a cada álbum publicado no Brasil ou na Europa - que conseguia comprar por aqui. Desde que a Martins Fontes lançou O Clic, em 1987, tornei-me fã.

Serpieri
Paolo Eleuteri Serpieri
De lá para cá, procurei colecionar tudo que havia saído antes no Brasil sobre esses mestres. Como, por exemplo, o amplo espaço dado pela revista
Grilo, no começo da década de 1970, a Crepax, quando lançou seus quadrinhos no país.

A idéia de escrever um livro mais analítico me empolgou porque sempre estive muito perto da obra desses autores.


UHQ: O livro foi produzido sob a ótica de um fã?

Gonçalo: Pelo contrário. Procurei me impor o desafio de fazer uma análise crítica o mais rigorosa possível desses artistas, mostrar suas referências e influências e lhes dar um caráter de autores de legítimas obras de arte. É, portanto, um livro teórico, sim, mas sem a metodologia e a chatice que se encontra em algumas teses acadêmicas mais conservadoras nesse aspecto.

Milo Manara
Milo Manara
Fui bastante crítico e implacável especialmente com Manara, que cometeu alguns equívocos, como as continuações de
O Clic e o álbum Encontro Fatal. Para mim, foram os grandes erros de sua carreira. O último é uma bizarra história na qual uma mulher é estuprada todos os dias ao longo de quase um mês por ordem de um agiota, que quer punir o marido da garota. Terrível, sem nada de erotismo. Ou, talvez, eu não tenha tido a capacidade de compreender qual foi seu propósito neste álbum.

UHQ: Em 2004, você lançou A Guerra dos Gibis, um longo estudo sobre a censura aos quadrinhos no Brasil. Essa guinada para o tema sexo - que normalmente enfrenta certa resistência, tanto de editores quanto de livreiros - não o intimidou?

Gonçalo: Não. Primeiro, porque parti da certeza de que teria onde publicar e não seria censurado de forma alguma. Carlos Mann não limita número de páginas, não faz censura política ou ideológica, não impôs qualquer regra. Diz apenas: "Escreva o que quiser". Não tenho a pretensão de agradá-lo, mas justiça seja feita.

Serpieri
Serpieri e Druuna
Portanto, jamais pensei que pudesse ter algum tipo de restrição quanto ao tratamento do tema. E uma reação assim depois do livro pronto não tem acontecido em relação à imprensa. Todos os jornais e revistas têm recebido o livro com grande entusiasmo e muitos elogios quanto ao formato, ao acabamento gráfico. Estou esperando apenas as críticas quanto ao conteúdo, à tese que tentei construir sobre cada autor.

E quero ressaltar que o tema erotismo é o foco de
A Guerra dos Gibis 2, que escrevi antes do volume 1 e, provavelmente, não receberá este título. Estudo a censura aos quadrinhos e às revistas erótico-pornográficas entre 1964 e 1985, a partir da trajetória de duas editoras, a Edrel e a Grafipar. Faço um mergulho nesse mundo marginal e mostro como a repressão ao sexo durante a ditadura foi um elemento importante para sustentação do regime.

No momento, tento enxugar esse material já escrito, que renderia um livro de mil páginas. Espero muito publicá-lo em 2006.


UHQ: Em Tentação à Italiana é nítido seu esforço em realçar a linha tênue que separa o erótico do pornográfico, o bom-gosto do vulgar. Acha que atingiu esse objetivo?

Manara
Uma das musas de Manara
Gonçalo: Sim. Acredito que identifico elementos artísticos suficientes nas obras de Crepax, Manara e Serpieri para confirmar que eles eram e são mestres do erotismo, a partir de um conceito de arte.

Minha visão da pornografia, construída a partir do longo estudo que fiz sobre a indústria editorial do sexo na ditadura brasileira, é o de que ela distorce a visão que o homem forma da mulher e acaba por estragar os relacionamentos entre os sexos. Não quero dizer que deva ser proibida. Longe disso. Compra quem quer e deve continuar assim.

Emmanuelle, Bianca and Venus in Furs, de Guido Crepax
Emmanuelle, Bianca and Venus in Furs, de Guido Crepax
Mas o gênero estereotipa a mulher, faz com que o homem pense que ela age como ele, quando sabemos que o sexo na cabeça feminina é diferente, tem outro time, é mais sensorial, tátil, exige envolvimento, comprometimento etc. Crepax, Manara e Serpieri vão muito além disso. O primeiro, então, é, para mim, um dos mais importantes autores eróticos e de quadrinhos em todos os tempos.

UHQ: Então, o erotismo é essencialmente mais feminino e a pornografia, masculina?

Gonçalo: Perfeitamente. Essa é a síntese. A pornografia é visual, assim como o sexo para o homem é visual. Por isso, podemos ser tão facilmente manipuláveis. Muitas mulheres desconhecem que têm esse poder.

UHQ: Dos autores que aborda no livro, qual o mais importante em termos de inovação e influência no gênero?

Valentina
Valentina
Gonçalo: Crepax. O que ele estabeleceu a partir de seus experimentos múltiplos e revolucionários em arte e linguagem na narrativa seqüencial foi seguido com bastante fidelidade por Manara e Serpieri. As fantasias sexuais, a presença do sonho e de elementos da psicanálise que Valentina tanto vivenciou são características marcantes principalmente em Druuna. Há muito mais semelhanças e aproximações entre ela e Valentina do que se imagina.

UHQ: Por falar nela, que importância Valentina tem para os quadrinhos adultos europeus?

Gonçalo: Embora Valentina tenha sido muito influenciada pela francesa Barbarella, de Jean-Claude Forest, coube a ela se tornar a ponta-de-lança de uma revolução na linguagem dos quadrinhos, promovida por Crepax.

Barbarella
Pôster de Barbarella
Barbarella estabeleceu uma ousadia sem precedentes, mas teve vida curta, além de viver fantasias por demais exóticas num mundo distante, fantasioso, típico da ficção científica - sem querer tirar os méritos dessa incrível personagem. Já Valentina estava mais próxima do leitor, da realidade de um mundo em profundas transformações políticas, culturais e de comportamento, como aconteceu na década de 1960.

Ela incorporou a revolução sexual e a contracultura, a
nouvelle vague do cinema francês como nenhum outro personagem dos quadrinhos. Nesse contexto, estabeleceu modismos para o comportamento feminino, desnudou o universo da mulher para o público masculino, pregou sua liberdade sexual e o direito ao prazer. Daí sua enorme importância, que tomei a liberdade e a pretensão de ressaltar.

Valentina
Valentina
UHQ: Quanto do sucesso das obras desses autores se deve à arte (com suas belas personagens), e quanto se deve aos roteiros?

Gonçalo: Muito já se disse que os desenhos bastavam. Não é por aí. Meu propósito foi mostrar que tão importante quanto a arte eram as tramas, os roteiros, os universos densos e peculiares que cada autor criou para suas personagens.

As obras de Crepax, Manara e Serpieri são eternas porque existe nelas uma inegável densidade literária e, conseqüentemente, de valorização artística. Por isso, já duram tanto tempo. E são conhecidas não apenas pela longevidade e constância de sua produção.


Valentina
Valentina
UHQ: Você acha que os trabalhos deles continuaram evoluindo ou atingiram um auge e estagnaram?

Gonçalo: No caso de Crepax, a evolução foi permanente e constante até o fim de seus dias, em 2003. Ou melhor, até quando produziu, pois havia se afastado do desenho por problemas de saúde nos últimos anos. Em quase quatro décadas de produção, ele jamais se acomodou. Além de manter Valentina em atividade e de envelhecê-la num tempo próximo do leitor, nunca parou de experimentar em suas histórias. Ao mesmo tempo, criou personagens marcantes como Bianca e Anita e adaptou clássicos do erotismo e do terror de uma forma bem pessoal e ousada.

Druuna
Druuna
Talvez Serpieri esteja numa encruzilhada com Druuna. Suas duas últimas histórias mostram certo cansaço, parece perdido porque não consegue sair do ambiente físico que criou para sua personagem e tem partido para delírios e devaneios que confundem cada vez mais os leitores. Ele poderia experimentar mais, levá-la para outros mundos. Já pensou Druuna na Terra, com uma calça jeans bem apertada e um decote generoso?

Manara também seguiu o mesmo caminho de Crepax nos 15 primeiros anos. Só acho que não devia ter cedido aos apelos do mercado e feito as continuações de
O Clic, que são apressadas, incoerentes e repetitivas.

UHQ: Qual a importância dos demais autores da arte erótica citados no livro? Em que medida foram influenciados pelos três grandes mestres?

Franco Saudelli e Jean Claude Forest
Franco Saudelli e Jean Claude Forest
Gonçalo: Artistas - prefiro chamá-los assim - como Liberatore, Magnus, Frollo, Saudelli e Rotundo têm suas peculiaridades e o pouco que saiu deles no Brasil mostra um talento apenas um pouco abaixo da linha estabelecida por Crepax, Manara e Serpieri.

Falo deles na parte final do livro, em pequenos capítulos. Só não sei até onde as inconstâncias do mercado frearam a produção erótica desses artistas. Rotundo, por exemplo, tem um nível excepcional. O que Magnus fez em
As 101 Pílulas vai além do extraordinário.

Barbarella
Barbarella
UHQ: Barbarella é uma personagem criada na França. Por que a incluiu no livro?

Gonçalo: Ela entra no anexo não apenas por seu pioneirismo, como já disse, mas porque achei importante mostrar suas peculiaridades. Afinal, poucos leitores brasileiros tiveram acesso a seus quadrinhos. Barbarella foi tão importante para as HQs que ainda não conseguimos dimensionar o quanto. Nem mesmo os franceses se deram conta disso, até onde sei.

UHQ: O maior mérito dos italianos está na reciclagem e adaptação de personagens, temas e padrões americanos, franceses etc., ou na criatividade espontânea, distante da influência estrangeira?

Gonçalo: Fico com a segunda opção. O êxito está principalmente na liberdade que se deram para criar a partir do erotismo. Tanto que ainda são censurados em vários países. Na verdade, existe uma tradição de erotismo na Itália que remonta aos tempos do Império Romano e que reapareceu com força nas artes plásticas e na escultura durante o Renascimento. Nem mesmo a presença forte da Igreja conseguiu contê-la.

Gullivera, por Manara
Gullivera, de Manara
Os italianos tiveram um outro período de trevas durante o regime fascista de Mussolini, mas o cinema resgatou isso. Noutro aspecto, Manara não faz quadrinhos para impressionar os americanos. Ele trabalha como ninguém o mundo das fantasias sexuais humanas universais. Há um meio termo aí. Você não vê - à exceção do magistral
Rever as Estrelas (para mim, sua obra-prima) - temas nacionalistas nas histórias.

Manara e Serpieri fazem quadrinhos pop, universalizados, porém com total liberdade de criação e concepção, dentro dessa tradição italiana.


UHQ: Já quase um século, os Estados Unidos exportam, nos comics, seus padrões para quase todo o mundo. Recentemente, o Japão trilhou os mesmos passos com mangás. Por que essa hegemonia não passou para a Itália, que é o país do design e das artes gráficas?

Morbus Gravis - Druuna
Morbus Gravis - Druuna
Gonçalo: Como disse, é uma questão cultural mais ampla e complexa, que exige certa proximidade e conhecimento para ser compreendida ou explicada. A Itália era completamente dominada pelos comics até 1938, quando Mussolini proibiu, por meio do Ministério da Cultura Popular, sua publicação. Trato disso com detalhes no livro - e também em A Guerra dos Gibis.

Como conseqüência, o mercado passou por um período traumático, confuso, quando predominou o plágio e a influência norte-americana nos autores. Principalmente o faroeste. Depois da guerra, essa censura acabou. No começo da década de 1960, surgiu na Europa um movimento simultâneo de valorização dos quadrinhos, principalmente pela Universidade e pelo aparecimento de críticos e historiadores.

A partir desse momento, a Itália começou a desenvolver um quadrinho adulto e mais autoral, que conseguiu se estabelecer, mesmo com a forte presença dos
comics e seus temas americanos. Surgiram grandes revistas e autores, com trabalhos consistentes que, de certo modo, devem ter contribuído para permitir uma vida própria às HQs italianas.