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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Julie e Julia


Ao sair da sessão, a vontade que se tem é de comer todas aquelas receitas que foram preparadas por Julia e executadas por Julie. Mas é claro que o filme, dirigido e adaptado por Nora Ephron com base nos projetos lançados por ambas, tem o intuito de mostrar a trajetória de cada uma para cumprir as suas metas.



Na trama, Julie Powell (Amy Adams) é uma funcionária do governo que atende as vítimas do 11 de setembro e se vê frustrada por ter largado os seus projetos de se tornar uma escritora. Tentando estabelecer algo de interessante e novo em sua vida, ela lança um blog no qual relata o cotidiano de uma mulher que pretende preparar todas as 524 receitas presentes no livro de Julia Child (Meryl Streep).


Paralelamente a isso, Nora Ephron volta o seu olhar para o final da década de 40, quando Julia Child chega à Paris e, encantada com o lugar, decide aprender mais sobre a culinária local.


A premissa de ”Julie e Julia” se parece muito com a do filme “As Horas”, de Stephen Daldry, que intercala três épocas: 1921, 1941 e 2001.


Três histórias vivenciadas em três lugares diferentes e contadas a partir de apenas um ponto em comum: a influência de uma obra literária.


Apesar de Nora Ephron ter tentando criar algo similiar, a sua equipe não consegue criar a mesma naturalidade com que “As Horas” fora concebido.


No filme de Daldry, fica claro que o tempo é um elemento que representa uma importância muito grande para a trama, principalmente pelo cuidado com a fotografia nas diferentes épocas em que ele se passa. “Julie e Julia” não tem essa preocupação. Nitidamente, poucos são os valores estéticos que o filme consegue alcançar.


Se por esse lado “Julie e Julia” não consegue ser eficiente, ele se segura mesmo na atuação de Meryl Streep e na trajetória que sua personagem tem em Paris ao lado do marido, que é um representante da embaixada americana no país.


Antes de vermos ela fazendo aulas de culinária e se empenhando em construir um livro de receitas sobre a comida francesa para donas-de-casa americanas, percebemos que ela tenta fazer diversos cursos enquanto o seu marido trabalha. E a relação entre os dois é algo que se torna muito bonito e apaixonante de se ver. Eles são cúmplices de um amor incondicional e se sustentam um no outro, mesmo em tempos difíceis.


Querendo ou não, esta mesma situação acontece com Julie. Cada vez mais empenhada em cumprir as suas metas (principalmente porque ela nunca conseguiu terminar um projeto antes), ela passa a ter cada vez menos para o seu casamento. Em uma das cenas em que ela surta por não ter conseguido fazer uma das receitas, a discussão com o seu marido também gera mais um problema na sua vida.


O mais importante é que Nora Ephron tenta mesmo criar um paralelo entre as duas, mostrando suas personalidades e a maneira como elas, de alguma forma, se completam.



A maior característica do longa é pela leveza do roteiro, mas isso não é o suficiente para que ele se torne um excelente filme. Na metade pro final, a obra perde um pouco de força.


A partir desse instante, vemos também Powell questionando a “perfeição idealizada” que ela tinha de Julia. E isso passa a acontecer quando ela supostamente recebe algumas críticas da própria por ter criado o blog.


De qualquer maneira, Julie continua achando que a sua “amiga” Julia é uma pessoa perfeita, que sempre esteve presente para o seu marido e que sempre soube buscar a felicidade nas pequenas coisas que fazia, não desistindo nunca dos seus sonhos e enfrentando os desafios que a vida lhe obrigava a passar. E isso é uma realidade porque acontece quando temos alguma pessoa como fã, sempre imaginando que este alguém é um ser superior a todos os outros que existem.

“Julie e Julia” vale por ter mais uma atuação impecável de Meryl Streep. É impressionante a maneira como ela consegue encarnar personagens diferentes a cada filme.


Andando de maneira atrapalhada, respiração ofegante e sempre aparentando uma felicidade no olhar e na voz contagiantes, a atriz segura o filme do início ao fim.


Ainda com os erros, o longa é delicioso (literalmente).
NOTA : 7,0

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Julie e Julia


"O desafio: 524 receitas em 365 dias. A desafiante: Julie Powell , funcionária do governo de dia, gourmet renegada pela noite". Registrar num blog a experiência de fazer todas as receitas do livro Dominando a arte da culinária francesa da famosa chef Julia Child no prazo de um ano.

Esse foi o primeiro passo para Julie (Amy Adams), montar um blog que ficou entre os mais populares da época. Enquanto isso — bem aos moldes das montagens paralelas clássicas — acompanhamos, cinquenta anos antes, a própria Julia Child (Meryl Streep) chegando à Paris com seu marido Paul (Stanley Tucci) e suas reinações até se tornar o mito culinário que popularizou a cozinha francesa entre as donas de casa americanas.

A diretora Nora Ephron tem um currículo bem, digamos, eclético. É roteirista dos bons Harry & Sally e Silkwood – Retrato de uma coragem, dirigiu o mediano Mensagem para você, os fracos Michael, anjo sedutor e A feiticeira, entre outros. Mas na junção, parece ter finalmente acertado a mão com Julie & Julia. O roteiro da própria diretora baseado nos livros Minha vida na França, de Julia Child e Alex Prud'homme, e Julie & Julia de Julie Powell não tem nada de muito original já que a mesma premissa fora usada em As horas. Mas o que inova é o fato de ser o primeiro filme comercial a ser baseado num blog, já que o livro de Powell é a transcrição de seu próprio desafio publicado diariamente na internet.

Com belíssimas tomadas que conseguem igualar o charme cru do bairro do Queens, em Nova York, à opulência de Paris, a câmera da diretora passeia leve pela história como um árbitro de futebol que apita direitinho sem ter que aparecer mais que o jogo. O elenco não fica para trás, o "núcleo" da Grande Maçã é bem competente sem chegar a ser brilhante, enquanto que Meryl Streep despida de vaidade sem usar nariz falso para isso — o que convenhamos não é para qualquer atriz — já consegue uma aproximação digna de uma conferida, mesmo que sua personagem volta e meia lembre Terry Jones do Monty Python imitando uma mulher. Mas não se enganem, Julia Child falava assim mesmo, para quem não conhece é só dar uma olhadela no You Tube.

Tirando alguns vários anacronismos temporais, a produção como um todo também não decepciona, entregando um filme gostoso de assistir, apesar de longo demais, romântico — chamem-me de sentimental saudosista, mas Mery Streep alisando a barriga de Stanley Tucci na cama traz boas recordações do romantismo simples tão deixado de lado pelo cinema nos últimos tempos — e ao mesmo tempo engajado politicamente, com dezenas de metáforas em geral com comida.

Vai agradar com certeza todos os fãs de culinária, em especial a francesa. Assim como facilmente vai desagradar republicanos e os mais radicais defensores dos animais — uma certa cena envolvendo lagostas chega a ser cruel — mas tirando isso, o filme apesar de não ser memorável, é um agradável passatempo para o público em geral, com alguns poucos momentos que se destacam além da média. Por exemplo, a diminuição daquelas conclusões dramatizando e aumentando o que de fato não aconteceu pode até frustrar alguns, mas talvez seja o indicativo de uma maturidade querendo tomar corpo no cinemão comercial. Mas provavelmente será sufocada logo nas próximas produções.


Por Vander Colombo