Avaliação: nota 5
 


Desde 2008 se fala sobre a irreverência de “Elvis & Madona”, comédia dirigida por Marcelo Laffitte. Finalizado no ano seguinte e motivo de glória em festivais em 2010, o filme sofreu para estrear no circuito nacional, não pela temática ousada, mas pela dificuldade de investimentos para filmes independentes. Fugindo do cinema marginal, a comédia fala principalmente de amores improváveis, temática universal independente de sexualidade.

Na trama, Igor Cotrim interpreta Madona, um travesti que sonha em subir ao palco e fazer o grande show da sua vida. Com um passado difícil, que envolve a indústria pornográfica e affairs mal resolvidos, Madona conhece Elvis por acaso, interpretada por Simone Spoladore, uma fotógrafa lésbica e que trabalha como entregadora de pizza nas ruas de Copacabana. A gentileza de Elvis encanta os olhos de Madona, que vê em Madona uma beleza sublime. A partir de então, os dois descobrem que a paixão não tem nome ou gênero, mas que ficar juntos pode ser mais complicado do que esperavam.

Laffitte e Cotrim constroem Madona ao estilo das produções recorrentes de Pedro Almodóvar. Aliás, não é de se espantar ao identificar um pouco de Agrado (Antonia San Juan, em “Tudo Sobre Minha Mãe”) no jogo rápido de palavras e no humor involuntário. O glamour (ou falso glamour) que Madona vive a transforma em uma personagem interessante, ainda que dramática ao extremo.
O exagero faz parte, mas prejudica principalmente quando a personagem precisa evoluir durante a trama. O objetivo de Madona em realizar o show de sua vida já não é mais importante frente à relação amorosa com Elvis, talvez por isso o terceiro ato se equivoque ao criar situações desnecessárias.

Simone Spoladore, sempre irretocável em tudo que faz, está entregue a Elvis. É dela que o público capta as principais problemáticas enfrentadas pelos homossexuais, tanto em questão de aparência como nas relações familiares. Os trejeitos masculinos de Elvis nunca escondem sua sensibilidade feminina. A cena que envolve a apresentação de Madona à família de Elvis é bastante inspirada, sem nunca perder o humor ou torná-lo escrachado. A participação de Maitê Proença, como a matriarca da família, colabora para que este seja o ponto alto e inesperado da trama.

Os momentos inspirados, entretanto, são poucos. O roteiro, escrito também por Laffitte, não esconde sua fragilidade ao misturar tantas temáticas e esquecer do principal: desenvolver aquele amor inesperado. Após firmarem o namoro, não vemos os dois como casal, a não ser quando o roteiro precisa incluir uma nova complicação da vida deles. A falta de naturalidade da relação atrapalha o restante das subtramas, como a vontade de Elvis em se tornar uma repórter fotográfica ou a gravidez não planejada. A relação de Madona com seu ex-namorado João Tripé também exala previsibilidade sobre as implicações que terá junto a Elvis, principalmente porque fica claro que o novo casal conseguirá superar tais ameaças sem muitos esforços.

O humor do script intercala entre momentos positivos e negativos, investindo até mesmo em algumas gags divertidas, mas não mantém um nível crescente. Em algumas sequências, as piadas se auto explicam, como no uso de gírias do mundo gay, sacrificando a espontaneidade das interpretações. Não é preciso explicar as piadas, nem mesmo para incluir qualquer tipo de público. Por outro lado, as referências ao mundo pop são bem apropriadas e os atores fazem o que podem com o que lhes é dado, sempre imersos em uma trilha sonora também pontual que reitera o que está sendo visto em cena, com canções que falam de Elvis e Madona ou amores impossíveis.

Ousadia para o cinema nacional, mas nem tanto em termos mundiais. Em 2006, o filme sueco/dinamarquês “Além do Desejo”, de Pernille Fischer Christensen, também mostrou uma relação inesperada entre um transexual e sua vizinha, em uma tragicomédia bastante elaborada e eficiente ao que se propõe discutir. Já Laffitte se permite brincar com temáticas demais em “Elvis & Madona”, mas esquece que o roteiro não é substancial o bastante. Diversão existe, mas é controlada.
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Diego Benevides é editor chefe, crítico e colunista do CCR. Jornalista graduado pela Universidade de Fortaleza (Unifor), atualmente é pós-graduando em Assessoria de Comunicação, pesquisador em Audiovisual e professor universitário na linha de Artes Visuais e Cinema. Desde 2006 integra a equipe do portal, onde aprendeu a gostar de tudo um pouco. A desgostar também.