Avaliação: NOTA 10
 

Como algo tão que começou tão inocente tornou-se tão devastador? Preparando-me para o final de sua cinematográfica saga (sim, o termo aqui se aplica), revi todos os passos de Harry Potter nas telas. O vi aprender sobre o mundo dos bruxos, despertar para sua verdadeira natureza e, enfim, compreender que aquele mundo não era só feito de aventuras e desafios mágicos a serem vencidos, mas de escolhas difíceis a serem tomadas.

O mal existe e, com ele, a guerra não tardou, trazendo pesares e tristezas que chegam a seu clímax em “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2″. Sem reapresentar personagens ou situações, o longa se ocupa em fechar as pontas soltas e se aprofundar mais ainda na alma daquelas figuras que vimos florescer em nossas imaginações na última década.

A história chega ao fim em meio a um clima que não pode ser dissociado do cotidiano europeu durante a Segunda Guerra Mundial. O Mundo da Magia fora conquistado por Voldemort (Fiennes) e seus supremacistas. O Ministério e Hogwarts se transformaram em versões sombrias do que eram no tempo em que Harry vivia no armário debaixo da escada, se tornando instituições comandadas por seguidores fanáticos de um líder totalitário ensandecido. Harry (Radcliffe), Hermione (Watson) e Rony (Grint) se incumbiram de destruir as horcruxes restantes para, finalmente, tornar Voldemort um mortal e tar alguma chance de acabar com seu reino de terror.

Após uma complicada parada em Gringotes, o trio descobre que um pedaço da alma Daquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado se encontra em sua antiga escola, percebendo que lá será travada a batalha de suas vidas. Uma resistência frágil, mas viva, persistente em Hogwarts, se organizando sob um baluarte, a mais que provável queda de um raio. A fé inteira de uma nação sob o jugo de um ditador resta depositada em Harry. As peças se organizam e o fim começa.

Através da magnífica fotografia de Eduardo Serra, que equilibra luz e sombras de uma maneira não menos que espetacular, acompanhamos aquele castelo magnífico se transformar em um campo de guerra em ruínas e aquelas outrora crianças ascenderem ao heroísmo. Não por suas proezas em combate, mas pela força de seus corações. Corações esses que serão partidos por perdas brutais e a revelação de um herói até então desconhecido, movido apenas por um amor que, embora não correspondido, nunca deixou de existir.

O diretor David Yates percebe que ação sem emoção é algo vazio. A partir deste entendimento, transforma a batalha de Hogwarts, um dos grandes destaques do filme, não em um espetáculo pirotécnico, mas em algo mais profundo. O diretor constrói todo um clima de tensão para o confronto, que se anuncia através da poderosa presença psíquica de Voldemort na mente dos alunos e professores da escola de magia. É a guerra psicológica levada ao seu extremo.

Trasgos, bruxos malignos e Comensais da Morte encaram o verdadeiro espírito de Hogwarts em meio a um cenário de morte e destruição. Não é um filme para crianças. Personagens queridos morrem com pouquíssima cerimônia, com suas ausências sendo sentidas nos momentos de silêncio, não na batalha. Yates não trata a guerra com glamour, mas com dor, tal como deve ser abordada.

Um elenco impecável premia essa conclusão. Daniel Radcliffe pouco lembra o garotinho que tentava passar alguma emoção nos primórdios da saga, encarnando um Harry cada vez mais seguro, mas que deixa transparecer momentos de pânico ao perceber seu possível destino. Do trio, Rupert Grint foi o que mais evoluiu. De um careteiro histriônico, seu Rony se tornou uma verdadeira rocha, mesmo com seus momentos de humor. Emma Watson exala beleza e graça como Hermione que, mesmo representando a “razão”, acaba sendo a mais passional dos três.

Ralph Fiennes mostra por que fora chamado para encarnar Voldemort, revelando mais e mais do vilão em uma gama impressionante de emoções. Mesmo sob toda a maquiagem, o ator exibe um alcance. Quando fragilizado, Tom Riddle se torna mais assustador e imprevisível. Ao matar um de seus capangas por ousar falar no momento errado, enxergamos a ira e o medo por trás daquele gesto, não sendo uma mera muleta de roteiro para mostrar “como o vilão é mau”.

Michael Gambon retorna brevemente como o sereno Alvo Dumbledore, não mais uma presença física para Harry, mas com sua influência sendo sentida a todo o momento. Vale a pena fazer um pequeno parêntese sobre a omissão no filme de certos detalhes sobre a biografia de Dumbledore presentes no livro de J.K. Rowling. Espertamente, o roteiro de Steve Kloves aborda isso com simplicidade ao afirmar que não interessa para a história o homem que Dumbledore era antes de Harry o conhecer.

E o que falar de Alan Rickman? O ator, que conheci como o deliciosamente maligno Hans Gruber em “Duro de Matar”, aparece apenas em momentos-chave de “As Relíquias da Morte – Parte 2″, mas suas aparições são verdadeiros tesouros. O arco de Snape neste fechamento nos faz querer rever todos os filmes da saga novamente, só para que possamos acompanhar cada lance desse verdadeiro mestre, não apenas da magia, mas do ilusionismo. Um personagem complexo e fascinante.

São tantos nomes nesse verdadeiro panteão britânico de verdadeiras lendas a deixarem sua marca na franquia. Maggie Smith faz Minerva McGonagall brilhar como nunca, quase uma Winston Churchill do mundo mágico. Outra dama, Julie Walters, finalmente vê sua Sra. Weasley sair do papel de rainha do lar e defender seus filhos com unhas, dentes e varinha. John Hurt, Helena Bonham Carter, Jim Broadbent, Jason Isaacs, Gary Oldman, David Thewlis, Emma Thompson, o subestimado Ciarán Hinds surgindo como Abeforth Dumbledore… Um verdadeiro “quem-é-quem” dos grandes representantes das artes cênicas da terra da Rainha. Todos aparecem, mesmo que em pontas, nesse momento marcante da história do cinema. Sem egos a serem massageados.

Revisitamos cada momento que passamos juntos a Harry, experimentando novamente, mesmo que por um breve momento, o calor de momentos e entes queridos passados. Esse calor que dá forças para continuar em frente e fazer não o que é fácil, mas o que é certo. Reconhecer em outros o sacrifício que devemos cometer.

O filme ainda é coroado pela maravilhosa trilha sonora de Alexandre Desplat, que se utiliza de temas tocados nos outros capítulos da saga para nos trazer uma sensação de nostalgia absolutamente necessária, ao mesmo tempo em que nos traz também composições mais melancólicas, que refletem os momentos desesperadores deste ato final. Complementam a experiência efeitos visuais de tirar o fôlego e uma fabulosa direção de arte.

O epílogo deixa claro que a inocência e a alegria são transmitidas através das gerações. Sim, crescemos, mas as alegrias da infância perduram nos nossos filhos, tornando-as eternas. É o que faz valer toda a dor do crescimento, saber que, um dia, nossos filhos poderão saborear uma infância tão mágica e amigos tão fiéis quanto os que tivemos.

Durante esses dez anos de “Harry Potter” nos cinemas, eu cresci com o jovem mago. Saí da adolescência para a idade adulta junto dele, Rony e Hermione. Foi uma experiência incrível, cheia de reviravoltas e emoções. Será algo que milhões de fãs ao redor do mundo poderão guardar para sempre. Despedi-me de meus amigos sabendo que poderei revisitá-los quando quiser, através dos ótimos filmes pelos quais nos conhecemos. Até um dia, pessoal!
___
Thiago Siqueira
 é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema.