sábado, 27 de novembro de 2010

Moebius


Ilustrador elevou o patamar das HQs

O francês Jean Giraud, conhecido pelo pseudônimo Moebius, transformou gibis em entretenimento adulto



Mostra sobre o artista, em Paris, reúne 400 obras, como pinturas, quadrinhos inéditos e projetos de filmes

FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES



Foi uma viagem solitária ao deserto entre México e EUA, aos 16 anos, que ficou para sempre no imaginário do ilustrador francês Jean Giraud, ecoando por décadas em seus famosos quadrinhos, principalmente nos faroestes realistas de "Blueberry", uma de suas obras-primas, criada em 1963 e publicada até 2005.


 

"O ônibus parou no meio do deserto. Vi uma casinha do nada, como nos filmes mexicanos, e fui até lá. A porta se abriu e eu vi todo o deserto. Foi uma visão incrível", descreveu o artista de 72 anos, num evento de HQ em Los Angeles, no dia 20.

"Desde então tenho essa sensação de estar em outro planeta, num lugar mágico. Carrego aquela imagem."


 

E tudo isto antes dos cogumelos que experimentou num ritual com índios, ao voltar ao México poucos anos depois.

"Foi doloroso, vomitei, chorei. Mas tive muitas visões, foram úteis para o meu trabalho", continuou o francês, que com o pseudônimo Moebius criou espetaculares universos futurísticos para quadrinhos, como nas aventuras do solitário guerreiro de "Arzach" ou na complexa ficção científica de "A Garagem Hermética".


 

Esse mundo fantástico de Giraud, considerado um dos papas das HQs, pode ser visto numa retrospectiva que acontece até março em Paris, na Fondation Cartier.

São 400 obras, entre quadrinhos inéditos, pinturas, anotações pessoais e projetos de filmes, coletados entre os 50 anos de sua carreira.


 

A mostra também exibe o documentário "Metamoebius", de Damian Pettigrew.



CINEMA NO PAPEL

Giraud começou a desenhar aos 12 anos e costumava ler os gibis que chegavam à França, como "Mandrake". Na adolescência, era fã de Federico Fellini (1920-1993) e de cinema americano, como faroestes e musicais.

"Quando desenho no papel, estou dirigindo meu próprio filme. E fazendo a trilha sonora na minha cabeça", contou no evento em Los Angeles, fazendo soar um trompete com a própria boca.



 

Depois de passagens por algumas publicações, como a "Pilote", e das experiências no deserto, Giraud criou com amigos a revista pioneira "Métal Hurlant", em 1975, que levou a arte dos quadrinhos para um novo patamar, entretenimento adulto.



 

"A "Pilote" era uma revista de quadrinhos tradicionais. Depois de um tempo percebi que não seria possível continuar aquele casamento", disse o ilustrador. "Queríamos fazer uma separação de verdade entre velho e novo. E queríamos ser radicais."




Foi assim que ele criou "Arzach", até hoje publicada, sobre um herói misterioso, andrógino e que viaja numa espécie de pterossauro. Nas primeiras páginas da HQ silenciosa, o herói apenas voa por terras desoladas.



 

"Procurava algo novo, queria me surpreender. Queria uma imagem e ela foi me levando, não conseguia parar", contou.

E de onde tirou a inspiração para o chapéu pontudo, tão característico do herói? "Isto eu realmente não sei, mas acho que não tem a ver com aqueles cogumelos."




Artista criou roupas para "Alien" e "Tron"



DE LOS ANGELES






Jean "Moebius" Giraud também tem trabalhos importantes no cinema. Foi ele quem criou os uniformes dos soldados em "Alien - O Oitavo Passageiro" (1979), os monstros marinhos de "O Segredo do Abismo" (1989) e os storyboards e roupas futurísticas de "Tron" (1982), da Disney, cuja sequência estreia em dezembro.

Steven Lisberger, criador do "Tron" original e coprodutor do novo filme, foi ao evento em Los Angeles para ver a palestra do ilustrador francês.




Ao final, os dois se reencontraram com um grande abraço e foram cercados por muitos fãs.

"Ele me convidou para trabalhar no novo longa", disse Giraud à Folha. "Mas eu estava muito ocupado na época e recusei. Talvez tenha cometido um erro, não sei."




Na retrospectiva em Paris está sendo exibida sua primeira incursão à direção de filmes 3D, com o curta "La Planète Encore".

O filme tem oito minutos e trechos podem ser vistos em 2D no site da exposição (www.fondation.cartier.com). (FE)





RAIO-X JEAN GIRAUD


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2611201012.htm




VIDA

Nascido em 1938 em Nogent-sur-Marne, na França, estudou artes em Paris de 1954 a 1956, quando foi com a mãe para o México, onde ficou por oito meses. Numa nova viagem ao país, em 1965, interessou-se por rituais do xamanismo que influenciaram seu trabalho.




PSEUDÔNIMOS

Usou o nome Gir pela primeira vez em 1963, em "Blueberry". Na mesma época, publicou uma série na revista "Hara Kiri" que assinou como Moebius, inspirado pelo astrônomo e matemático alemão. Cada um tem estilo próprio: enquanto o primeiro é autor de westerns, o segundo explora o mundo dos sonhos e da ficção científica.











http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2611201012.htm

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