Avaliação: NOTA 2
 
 
 

A figura de Conan é a primeira que vem na mente do público quando se fala em um guerreiro bárbaro. A despeito de o personagem ter sido criado em 1932 pelo texano Robert E. Howard, ele fora eternizado na cultura pop em 1982, pelo filme de John Milius protagonizado por um monossilábico Arnold Schwarzenegger. Já esta nova versão cinematográfica da franquia entrará para a história por seu monumental fracasso em todos os sentidos.

Interessante notar que os dois longas possuem uma estrutura bastante parecida, mostrando a infância do personagem, sua reunião junto a aliados, um interesse amoroso e a perseguição ao vilão que devastou sua aldeia natal. O diabo, como em tudo na vida, jaz nos detalhes. Aqui, quem destrói o lugarejo do pequeno Conan e assassina seu pai (Ron Pearlman) é Khalar Zym (Stephen Lang), um conquistador em busca de um artefato sobrenatural.

Após escapar do massacre, Conan (Jason Momoa) cresce e se torna um guerreiro letal, fazendo tudo o que precisa para sobreviver em um mundo em caos, agindo como um mercenário e pirata. O destino (ou um roteiro ruim, como queiram) o coloca ao lado da bela sacerdotisa Tamara (Rachel Nichols), a última peça no plano de Zym e de sua sádica filha Marique (Rose McGowan) para trazer um antigo mal de volta à vida.

O texto de Thomas Dean Donnelly, Joshua Oppenheimer e Sean Hood é fraco, para dizer o mínimo. Os elementos sobrenaturais são jogados na trama de maneira aleatória, sem nenhuma construção de verossimilhança em relação àquele universo e as cenas de ação acontecem de qualquer modo, sendo forçadas dentro da projeção. A própria história é fraca, repleta de furos, com diálogos e personagens tolos.

Tentando recriar o momento do longa original no qual Conan diz o que é o melhor da vida é esmagar os inimigos, vê-los correr e ouvir o lamento de suas mulheres, algo que falava diretamente à natureza brutal do personagem, a nova versão do bárbaro define sua existência com um tolo “Eu vivo, eu mato e eu amo“, algo que mais parece título de um romance barato encontrado em bancas de revistas.

Outro “destaque” é quando a sacerdotisa Tamara “se apaixona” por Conan, logo após ele dizer que ela parece uma prostituta e um terceiro personagem falar que isso significa que o anti-herói gosta dela. Sem contar que, sabendo que o vilão a está perseguindo e que Conan está indo atrás do vilão, Tamara resolve correr do lugar seguro onde estava para os braços (e outros apêndices) de seu “amado”, demonstrando ter a inteligência de uma lontra.

Não bastando ter personagens desinteressantes e diálogos ridículos, o elenco também não ajuda em nada. Fisicamente, Jason Momoa foi uma ótima escolha para viver Conan, haja vista que o protagonista nos livros não é o tanque que mal sabia falar vivido por Schwarzenegger, mas sim um guerreiro forte astuto e esperto, capaz de se adaptar às mais diversas situações.

Apesar disso, Momoa trabalha com um tom de voz monótono, incapaz de retratar a selvageria de um homem que vive pela espada. Até mesmo o pequeno Leo Howard, que interpreta o jovem Conan, parece ter mais fogo nos olhos do que o ator havaiano. Sem contar que a sobrancelha bem-feita do ator consegue ser mais ridícula que o cabelo escovinha de Schwarzenegger nos anos 1980.

Momoa não possui nenhuma química com Rachel Nichols, seu interesse amoroso na fita, que é linda, mas apresenta na tela as capacidades de interpretação de uma pedra. O mesmo quase pode ser dito sobre Rose McGowan, mas nem de “linda” ela pode ser chamada, com o visual de sua Marique mais parecendo um destaque carnavalesco do que o visual de uma poderosa feiticeira.

Do mesmo modo que Momoa divide cenas ao lado de Nichols, McGowan passa boa parte de seu tempo em tela ao lado de Stephen Lang, intérprete do vilão Khalar Zym. Ator e personagem são algumas das grandes decepções do filme. Em “Avatar”, Lang havia incorporado uma figura lutadora que exalava masculinidade, algo similar ao que um guerreiro de épocas de feitiçaria e espada deveria ser. Aqui, seu Khalar Zym é apenas mais um vilão genérico de filme de fantasia, com uma história de fundo confusa, uma relação bastante esquisita com a filha e nenhum carisma, empalidecendo frente ao complexo Thulsa Doom do filme de 1982.

Esse desastre de US$ 90 milhões é coroado pelo diretor Marcus Nispel, aquele mesmo que havia comandado o fraco “Desbravadores”. Nispel conduz diversas cenas de ação dentro da fita, mas elas são tão genéricas e sem ritmo que a própria película se torna chata, fazendo com que os consideravelmente longos 113 minutos da produção passem ainda mais devagar. Ressalto ainda que o homem não tem o menor senso estético, algo comprovado pela breguíssima cena de sexo entre Conan e Tamara que lembra de maneira hilária os momentos calientes de “Emmanuelle no Espaço”, no finado Cine Privé.

O 3D do filme é inútil, podendo o espectador ficar sem os óculos durante boa parte da projeção sem perder muita coisa, e a trilha sonora tenta, em vão, ser épica, mais parecendo que o compositor Tyler Bates plagiou o próprio trabalho em “300″. Aos fãs de Conan, fica a dica: revejam o filme de John Milius, “Conan – O Destruidor”, ou até mesmo “Guerreiros de Fogo”. Vocês vão se sentir mais respeitados e verão um filme melhor (ou ao menos mais apreciável) que esta bomba.
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Thiago Siqueira
 é crítico de cinema do CCR e participante fixo do RapaduraCast. Advogado por profissão e cinéfilo por natureza, é membro do CCR desde 2007. Formou-se em cursos de Crítica Cinematográfica e História e Estética do Cinema